• Ana Paula Batista

Sobre Águas, Luzes e Sombras



Ela já estava com 36 semanas de gestação quando entrou em contato comigo para fazer ensaio de grávida. Eu, que já tive ensaios cancelados por motivo de nascimento de bebê, dei um jeito de agendar o mais rápido possível. Matteo esperou bonitinho e conseguimos fazer o ensaio dessa jovem deusa que é sua mãe.


Marina, que tem nome que vem de mar, queria fazer as fotografias em um lugar que tivesse água. Como não temos mar, vamos de lago mesmo. E ainda com uma luz incrível de fim de tarde para nos abraçar e nos mostrar como existe beleza e grandiosidade naquilo que por vezes julgamos tão simples. Cenário perfeito para celebrarmos a vida que já pulsava dentro dela e estava prestes a mostrar seu rostinho.


Já no fim do ensaio, sob luz dourada, Marina entrou na água. Ao vê-la molhando sua barriga, como se derramasse bênçãos sobre seu bebê, por um momento vi uma verdadeira rainha. Nem parecia que estava tão tensa com os pequenos peixinhos, pedras, areia e todo esse universo de lago.


No ensaio da Marina eu tive alguns insights, talvez resultado de estudos e terapia. Fotografia é um retrato do nosso mundo interior. Se me transformo internamente, minha fotografia sofre algum impacto. Isso pra mim não era novidade, entretanto neste ensaio essa percepção ficou ainda mais nítida aos meus olhos.


Venho buscando me aprofundar nesse ser complexo, cheio de luz e sombras, que sou eu.


Preciso estudar muito ainda para saber o que as imagens têm a me dizer, quais símbolos elas trazem, mas já percebi algumas pistas. Em outros tempos, eu procuraria um lugar na sombra para posicionar minha modelo e assim as fotos ficarem sem marcas ou contrastes de luz e sombras. Especialmente no horário em que começamos o ensaio, considerando que o sol ainda estava um pouco alto. Assim, ficaria com uma luz mais uniforme. Talvez até a posicionasse na luz, mas chegaria mais perto, com enquadramento mais fechadinho.


E eis que me vejo trazendo contraste. Eu que fugia das sombras, comecei a ver que elas poderiam aparecer. Entendi que só há sombra onde há luz. E comecei a ver beleza nelas. Acho que ainda tenho medo de algumas, mas elas estão aparecendo em minhas composições, me dizendo que algo internamente está acontecendo.


Esse ensaio é da Marina com o Matteo ainda na barriga. Mas também me vejo ali. Se é bom ou ruim, não sei. Só sei que é o meu jeito. Pelo menos agora. E tenho curtido muito esse processo.



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