• Ana Paula Batista

Energia feminina que bate e pulsa



Me vejo cercada por mulheres desde que nasci. Apesar de ter crescido com um irmão mais novo, sempre tive muita presença feminina. Venho de uma família de mulheres muito fortes, a começar por minha mãe. Tenho uma mulherada incrível como referência, mas não pensava que um dia teria meu trabalho voltado para mulheres, para o feminino.


Há alguns anos, quando era estagiária de psicologia no hospital universitário, como eu era a estagiária das manhãs de quarta, me tornei responsável por fazer palestras semanais a grupos de grávidas que estavam iniciando o pré-natal. No ambulatório, mesmo que a maior parte dos pacientes atendidos pelo projeto fosse masculina, no meu plantão apareciam mães, ou mulheres que estivessem nesse papel, com dificuldades com seus filhos. No outro estágio que fiz, o projeto era aconselhamento de mães sociais. Passei por essas experiências, só que ainda não tinha acendido a luzinha para trabalhar especificamente com mulheres.


Anos depois, apesar de ter entrado na carreira fotografando espetáculos de dança e casamentos como segunda fotógrafa, meu objetivo era juntar dinheiro para melhorar meu equipamento para então seguir carreira solo em fotografia de família. Era com famílias que eu queria me desenvolver desde o início, afinal de contas foram as fotografias da minha família que me chamaram atenção para essa ferramenta tão poderosa de documentação, autoconhecimento, conexão, transformação. Mas é claro que eu ainda não tinha noção de toda essa dimensão.


Por muito tempo, percebi minha fotografia como um legado, um tesouro direcionado às crianças, aos filhos. As crianças eram meu foco. Na fotografia de parto, em especial no primeiro parto normal que fotografei, algumas estrelinhas começaram a brilhar de forma diferente em mim. Vi uma mulher protagonista do seu parto, lutando para que suas vontades fossem respeitadas, ou pelo menos a maior parte delas. Fotografando essas mulheres me dei conta de que eu precisava também protagonizar a minha história.



Busquei nas fotografias da minha infância a minha criança. Busquei nas fotografias da infância da minha filha o meu eu-mãe. E nessa hora também vi que eu apareço pouco em minha própria história. Senti no coração o impacto das fotografias na minha percepção enquanto mulher, enquanto mãe. Essas fotos não eram só pra minha filha, eram pra mim também. Aí sim, tudo se clareou. E é curioso como muitas vezes precisam se passar anos para que os pontos se juntem.



A clareza veio quando voltei meu olhar para mim mesma. Quando entendi e senti na pele o impacto das fotografias na minha autoimagem, na forma como me vejo. Quando senti a importância delas para que eu pudesse me conhecer melhor. Quando busquei cura para o meu feminino, me cerquei de mulheres inspiradoras e olhei para dentro. Olhei para trás e olhei para o agora.


Percebi então, que as mulheres são o coração da minha fotografia, o que obviamente não tira o impacto que as fotos causam nas outras pessoas, nos pais, nos avós, nas crianças. O que quero dizer é que essa energia feminina é o que pulsa mais forte aqui. Fotografo mulheres em suas diversas fases de vida. Meninas, adolescentes, jovens, mulheres maduras, empreendedoras, vestidas, nuas, grávidas, parindo, celebrando os aniversários de seus filhos, amamentando, sendo mães, sendo filhas. Sendo elas mesmas em suas diferentes personas. Mulheres em seus universos femininos. Mulheres inteiras.


Nessa missão linda de me colocar a serviço delas, tenho me voltado para olhar a verdade de cada mulher que cruza o meu caminho. Entender sua força, suas vulnerabilidades, registrar sua beleza. Ajudar cada uma delas a se conectar consigo mesma e com sua história. Mostrar a elas o quanto são incríveis.


Então, se você já me acompanha há algum tempo, talvez perceba uma mudança de ótica. Uma troca de lente, como faço nos ensaios. As famílias vão continuar por aqui, mas por uma perspectiva dessa energia feminina que vem pulsando no meu olhar, no meu coração, nas minhas veias.


Além das fotografias de família, desde o ano passado senti uma vontade muito crescente no meu coração de retomar um projeto lindo que estava adormecido aguardando novas diretrizes. Mas a alma continua a mesma. Alma nua. Livre de amarras e preconceitos, meu olhar artístico permitindo que mulheres reais se vejam como são e expressem aquilo que desejam dizer ao mundo. Convido você a conhecer melhor esse lado do meu trabalho, que cheira lavanda e palo santo.



Com amor,


Ana

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