Uma carta para Lorenzo {fotografia de parto}

abril 12th, 2015

Pitico,

Você não imagina a felicidade que fiquei quando sua mãe foi lá em casa dando a notícia que tinha um bebezinho dentro de sua barriga. Quando ela foi embora, chorei sozinha, pedindo a Deus que abençoasse vocês e te desse muita saúde. Naquele dia mesmo tive a ideia de fazer pequenos vídeos pra te contar como seus pais estavam felizes durante a gestação, tudo o que acontecia. Queria te contar o quanto sua mãe é especial pra mim. Que quando éramos pequenas, até nossa adolescência, trocávamos cartas. Tenho todas até hoje. Queria te contar as coisas que fizemos juntas. Planejava te ensinar a me chamar de Tia Gata, pois sua mãe me chama de Gata e, como é praticamente minha irmã, me sentia sua tia. Mas, em casa de ferreiro o espeto é de pau. Um dia você vai entender esse ditado. O tempo foi passando e não consegui colocar meu plano em prática.

Quando éramos mais jovens, sua mãe dizia que achava que não ia querer ter filhos. Que não se imaginava acordando cedo e cuidando de crianças. Mas com o tempo, depois que ela se casou com seu pai, esse desejo de ser mãe foi se construindo e tomando força dentro dela. Enquanto você se preparava pra vir, ela também se preparava pra te receber.

Você veio no seu tempo e o período em que viveu no quentinho da barriga da mamãe foi muito tranquilo. Sua mãe ficou ainda mais linda. Ainda bem que pude fotografá-la durante toda a gravidez, pra te mostrar. Seus pais buscaram informações e foram decidindo a forma como gostariam que você nascesse. Eu não queria influenciar, mas estava sempre ali pra tirar dúvidas, de acordo com a minha experiência fotografando a chegada de bebezinhos.

Tenho muitos sonhos, sabe? E um deles foi realizado no dia em que seus pais me deram uma caneca com duas palavras: Super Madrinha. Essa caneca fica guardada num lugar muito especial. Quando passar essa sua fase de malinar em tudo, vou te mostrar. Uma missão grandiosa, que aceitei com o maior amor do mundo. Mudança de planos! Eu não iria mais te ensinar a me chamar de Tia Gata. A partir desse momento eu era a sua Dinda!!!

Tentei estar muito presente, apoiando e respeitando a sua mãe em sua transformação. Você a transformou, pitico! Vi aquela mulher pequena, aparentemente frágil, se tornar um mulherão, mostrando sua força e empoderamento. Ela queria que você fosse recebido com muito respeito, no seu tempo. E assim aconteceu!

Numa quinta-feira você começou a dar sinais mais claros de que estava pronto. Sua mãe sentia cólicas. Foi trabalhar. Nos falamos e ela estava bem tranquila, mas você não imagina o quanto fiquei tensa. Não é todo dia que vemos um afilhado nascer.

Antes de ir pra casa, passei pra comprar um presente pra você. Um balde pra te dar banho, te acalmar nas horas em que estivesse irritado, precisando relaxar na adaptação a esse mundo tão diferente do que você estava acostumado. Mantive contato com seu pai pra saber como estava evoluindo. À noite as contrações estavam mais fortes, mais duradouras e com menor espaço de tempo entre elas. Fui pra sua casa e levei um óleo pra fazer massagem. Sei que sua mãe detesta óleo no corpo, mas acho que a massagem ajudou. Mais tarde, a tia Taiza chegou. Uns dizem que ela é uma doula. Eu digo que ela é um anjo.

Sua mãe, que dizia que achava não ser capaz de sentir muita dor, atravessava cada contração com muita tranquilidade e coragem. Respirava, procurava uma posição mais confortável. Caminhava, ia pro chuveiro, cochilava sentada quando as contrações davam um intervalo um pouco maior. Foi assim a madrugada inteira. No final da manhã, fomos ao hospital pra médica avaliar. Você estava ótimo e bem posicionado. Mas ainda ia demorar um pouco.

Voltamos todos pra casa. Sua mãe conseguiu comer e descansar. Mais tarde as contrações ritmaram novamente. Mais uma noite de massagens, chuveiro, reboladas, respiração. Meia noite em ponto a bolsa estourou. As contrações vieram mais fortes, como tia Taiza já tinha avisado que aconteceria. Suas coisas e da sua mãe já estavam prontas. Fomos pro hospital, onde a médica nos esperaria.

No hospital, conseguimos uma sala com alguns recursos pra auxiliar durante o trabalho de parto. A médica, muito paciente, respeitando todas as vontades de seus pais, ia lá de vez em quando pra ver se estava tudo bem, ouvir seu coraçãozinho. Algumas horas se passaram. Bola, exercícios, banheira, preces. E sua mãe em nenhum momento pensou em desistir. Ela estava muito cansada, mas mostrou o quanto é forte. Acho que nem ela imaginou que tinha tanta força. Meio dia em ponto você chegou! Cabeludo, pequeno, de olhinhos puxadinhos. Estava cansado, pois também tinha trabalhado bastante.

Os pediatras te levaram pra uma outra sala, mas em pouco tempo você estava no colo da sua mãe, mamando, trocando olhares e carinhos. Você não imagina o quanto me emocionei não só em ver seu nascimento, mas em ver a minha prima querida se transformar na mãe que ela é hoje. Um ano se passou, pequeno! E é uma delícia poder estar ao seu lado, vendo seu desenvolvimento, suas descobertas, suas gracinhas. Meu coração pula de alegria a cada vez que você abre seu sorriso de dentinhos separados ao me ver. E quando me chama “Dááááá”… só falto chorar!

Amo você, pitico! Feliz aniversário!!!

Da sua Dinda apaixonada.

A luz que vem de dentro {espera pelo Lorenzo}

abril 2nd, 2015

Durante o planejamento do acompanhamento da gestação, decidimos que faríamos uma sessão sem barriga nenhuma, uma com a barriga começando a aparecer e duas com barrigão. As trinta e poucas semanas estavam chegando e nada de barrigão. Mesmo no finalzinho da gravidez, Ângela continuava com uma linda barriga pequenininha. Fizemos as duas últimas sessões com 33 e 35 semanas. Cada sessão teve um conceito, o que direcionou a escolha das paletas de cores e locações de cada ensaio.

No primeiro ensaio eu estava desejando uma luz mais difusa, dia nublado, pra explorar mais as cores e locações tipicamente urbanas. No segundo, por sua vez, eu queria explorar mais a luz linda do fim do dia, realçando a natureza e sua conexão com a maternidade. Agora o pôr-do-sol tão desejado pelos fotógrafos seria muito bem vindo. E fui atendida mais uma vez!

Juntamos a luz maravilhosa que a natureza nos mandou com a luz que Ângela carregava consigo desde o momento em que soube que estava grávida, gestando um bebê tão desejado e amado como o Lorenzo. E o resultado foi, além de uma tarde muito gostosa, belas recordações dessa fase especial que passa rápido e não volta.

Hynnieh, a menina que traz felicidade {parto domiciliar}

fevereiro 25th, 2015

A vida é uma verdadeira sucessão de lições. Sempre tento crer, por mais difícil que pareça, que todas as situações pelas quais passamos, sejam boas ou ruins, nos ensinam algo. E esse aprendizado faz parte da nossa evolução nessa jornada.

A fotografia de partos, especialmente, me traz muitos desafios. E, consequentemente, muito aprendizado. Cada parto me rende uma lição ao menos, que vou juntando às demais para tentar crescer profissionalmente e me tornar uma pessoa melhor. Fotografar partos consiste em um trabalho bastante delicado e que envolve questões bem sérias e talvez muito menos românticas do que se pensa. Envolve muita intimidade, cumplicidade, discrição, sensibilidade, empatia, respeito, discernimento de quando fotografar e quando sair. A todo tempo minha subjetividade vem à tona e me vejo em questionamentos eternos e filosóficos, dignos de mesa de boteco, com meus valores, princípios, sentimentos. Com meu eu.

Tinha acabado de chegar em um bar para encontrar uns amigos. Como estava em disponibilidade para parto, fui de suco de laranja. Junto com o suco, chegou também uma mensagem no celular dizendo que Hynnieh estava querendo ser fotografada. Trocando em miúdos, trabalho de parto! Abreviei meu encontro com os amigos e não demorei pra ir pra casa. Precisava descansar, pois em parto só sabemos a hora que chegamos, mas não temos ideia de que horas vamos voltar. Estava tudo pronto e organizado. Só restava esperar.

Passou a noite inteira, a manhã seguinte e passava da hora do almoço quando falei com Joana, a doula. Ela me disse que o trabalho de parto estava bem lento e que a gestante não queria ninguém mais em casa. Mas pediu pra eu ficar preparada que ela me chamaria na hora que achasse mais adequada. Um pouco depois, ligou me chamando, mas já advertiu logo que eu chegasse praticamente sem ninguém me notar.

Nem o interfone eu toquei. Entrei em casa e fiquei um bom tempo na cozinha. Parada. Fazendo minhas preces. Tentando me concentrar. Optei por começar com uma lente que me possibilitasse ficar mais distante, sem invadir muito o espaço do casal. O tempo foi passando e fui me aproximando, conforme sentia que me era permitido. Evitava ficar no campo de visão da gestante e não trocava uma palavra com ninguém.

Em paralelo ao meu universo e ao turbilhão de coisas que se passavam em minha alma, uma mulher vivia seu turbilhão de hormônios, juntamente com medo, ansiedade, cansaço, enquanto enfrentava cada uma das contrações. Durante o trabalho de parto, muitas histórias afloram. É comum fantasmas adormecidos despertarem. Mas do mesmo lugar de onde eles saem, vem uma força impressionante. Força, garra, vontade, fé, superação. A luz que dá caminho para a felicidade. E energia para umas boas reboladas na zumba! ;-)

Foi lindo ser cúmplice de tudo isso. Ser mais um olhar de encorajamento, acolhimento e confiança. Ser o sorriso que diz que vai dar tudo certo. Mesmo sem nenhuma palavra.

Hynnieh nasceu às 22h12 e, assim como reza o significado do seu nome, trouxe felicidade. Mais felicidade. Sua passagem para esse lado de fora foi especial e transformadora. Para seus pais e para mim também.

Voltei pra casa com uma lição valiosa. E sobre mim mesma. Enxerguei algumas sombras, fraquezas e vaidades. Mexendo na ferida, de coração aberto, pude mudar algumas posturas e perspectivas sobre meu próprio trabalho. Inclusive, objetivamente, alterando algumas cláusulas do contrato. Percebi que minha presença não é fundamental. Os bebês não precisam de mim pra nascer. A mulher não precisa de mim pra parir. Não querer minha presença não tem nada pessoal contra mim. E percebi também que não ser fundamental não quer dizer que não tenha valor. Muito pelo contrário. Minha arte não é item de checklist. E pra mim vale muito mais contar essas histórias de amor porque as pessoas querem do que porque precisam.

Mesmo a Naisa estando um pouco resistente no seu momento de dor e cansaço, eles concordaram que eu fosse. Quiseram as fotos, o filme e todo o tesouro agregado. E fiquei muito feliz por isso. Hynnieh vai poder ver a mãe forte e guerreira que ela tem. Essa família tem imagens que ajudam a reconstruir a memória. Poderão, por meio das fotos e do filme, reviver a emoção de um dia tão marcante. E, mais uma vez, meu coração se enche de alegria. Alegria de missão cumprida, e com amor!

Hynnieh – a menina que traz felicidade from Ana Paula Batista on Vimeo.

Pena que nesse parto eu ainda não tinha tripé… Senão tinha deixado a câmera filmando e caído no ritmo da zumba também! Mas tudo bem… dei minhas requebradas enquanto editava o filme. :)

Equipe:

Enfermeira obstetra – Melissa Martinelli, da Humaniza Parto Natural e Nascimento Planejado

Doula – Joana Andrade

Fotografia e filme – euzinha!

Quando a Rainha do Mar chama… {nascimento do Lorenzo}

fevereiro 2nd, 2015

Era sábado à noite quando uma mensagem avisava início de trabalho de parto. Eu imaginava que seria naquele fim de semana e já tinha deixado tudo organizado. Última verificada no equipamento, carga e olho no celular, esperando novidades. A partir dali, meu contato era só com Joana, a doula, que já tinha me avisado que o trabalho de parto avançava lentamente e que, provavelmente iria demorar. Ela me avisaria quando fosse pra eu ir. Fiquei, então, aguardando ser chamada, na hora que o casal achasse adequado.

Acordei algumas vezes no meio da madrugada, pra ver se havia alguma mensagem ou ligação no telefone. Nada ainda. Tentava descansar e pensar no casal e naquele bebê que estava prestes a chegar, mandando boas energias, desejando paz e serenidade para a família. De manhã, Joana me chamou. Disse que eu poderia ir.

Quando cheguei, Marcela e Léo estavam embaixo do prédio, fazendo uma caminhada, tomando um solzinho. Em casa estavam Paloma, a parteira, e Joana abrindo as janelas, arejando a casa, renovando as energias. Disseram que foi bom eu ter chegado com energia nova.

As contrações eram desejadas e comemoradas. Apesar de muito doloridas, Marcela sabia o quanto elas eram necessárias para que seu bebê chegasse. E atravessava a dor com muita tranquilidade. Ela dançava, agachava, sentava na bola, procurava posições que amenizassem a dor. Paloma e Joana se revezavam nas massagens, com suas mãos de anjo. Música suave e o cheirinho de incenso deixavam o ambiente ainda mais acolhedor. Tudo chamava pelo pequeno Lorenzo.

No plano de parto distribuído a todos os profissionais envolvidos, inclusive eu, Marcela deixou expresso que não queria se sentir observada, o que tornava a minha missão um verdadeiro desafio. O fotógrafo de parto tem que ser muito cauteloso, discreto e, sobretudo, ter sensibilidade para saber a hora de entrar e a hora de sair. Eu transitava pela casa de maneira quase que invisível e ficava atenta a qualquer sinal de que pudesse estar atrapalhando. Acredito que isso não aconteceu. Eu só ficava em um lugar quando sentia que tacitamente minha presença era permitida naquele momento.

Assim seguimos o dia. Aguardando o tempo do Lorenzo. Esperando e respeitando o tempo de sua mãe. Dando apoio e aconchego para amenizar as dores. Mostrando que estávamos ali, com eles. As contrações eram espaçadas e perdiam seu ritmo. A parteira, juntamente com o médico backup com quem mantinha contato, e com o consentimento do casal, decidiu pela transferência para o hospital.

Depois de avaliação do médico e de discutirem as possibilidades por um tempo, o casal concordou com a cesárea. Perguntei pra Marcela se ela gostaria que eu a acompanhasse e ela disse “Claro, Ana! Você está contando a nossa história!”. Me preparei para ver a carinha do Lorenzo que, como exceção das minhas estatísticas, nasceu com a cara da mãe.

Muitas vezes, a vida nos coloca diante de situações que fogem do nosso controle ou planejamento. Temos que estar abertos e flexíveis para aceitar os novos caminhos. Marcela se preparou muito para o tão sonhado parto domiciliar, mas a vida a desviou dos seus planos. Contudo, Lorenzo nasceu no seu dia, quando estava pronto. No dia de Iemanjá. Um filho da Rainha do Mar.

O fato de Marcela não gostar de ser fotografada e não querer se sentir observada, fez desse trabalho um dos mais desafiadores pra mim. Tive que ter sensibilidade redobrada, além de estar sempre atenta a qualquer sinal de que ela estivesse incomodada com minha presença. Em nenhum momento senti que estava atrapalhando. Quando entreguei as fotos, o retorno que ela me deu foi extremamente gratificante, especialmente diante de tamanho desafio. Entre várias outras coisas, me agradeceu por eu estar com eles, contando sua história. E que, por meio das fotos, percebeu o quanto foi forte e lutou até o fim para que seu bebê viesse a esse mundo de forma respeitosa.

Cada vez mais, eu percebo o quanto essa missão de fotografar partos é delicada e especial. Exige de mim uma série de características, atitudes, valores e conhecimento. Por isso, tenho em meu coração um cantinho para guardar cada parto, com muito carinho.

Lorenzo, hoje você completa seu primeiro ano de vida. Como o tempo passou rápido! Saiba que você tem pais maravilhosos. Sua mãe é doce, meiga e ao mesmo tempo muito forte e determinada. Uma verdadeira leoa que está sempre pronta pra te proteger. Seu pai, do jeito que é companheirão da sua mãe, tenho certeza que também é um pai babão, super apaixonado por você. Você é um menino de sorte! Feliz aniversário, pequeno!

Dias de sol… para sempre! {ensaio de família}

janeiro 28th, 2015

Acredito que quando estou fotografando, estou contando uma história por meio de imagens. Quando digo isso, não acredito que essa história seja aquela verdade dos fatos, mas sim a minha forma de ver as cenas. Não tem como separar as fotografias da subjetividade do fotógrafo, mesmo quando se trata de um trabalho comercial, ou seja, para clientes.

Quando uma família pretende me contratar para uma sessão fotográfica, gosto de conhecê-la primeiro. Esse é o meu jeito. Não é que seja certo e nem que seja o único. Quando vou conhecer a família, procuro saber os seus costumes, o que gostam de fazer juntos, seu estilo de vida, a idade das crianças se o casal tiver filhos. Tudo isso vai guiando a escolha de vários detalhes da sessão e ajuda na formação do conceito daquele ensaio.

Além disso, acho muito interessante saber o que motivou a família a querer uma sessão de fotos. Gosto não só de contar histórias, mas também de ouvi-las. E uma das coisas legais nesse universo de fotografeira é conhecer pessoas e histórias diversas. Muitas delas me emocionam. Tocam lá no fundo! E quando esse envolvimento acontece é tão gostoso… A sessão é uma delícia e, como consequência, o resultado fica de acordo com as expectativas da família.

Com essa família querida foi assim… Na troca de e-mails eu percebi a história linda que estaria por trás das fotografias. Quando nos conhecemos pessoalmente, tive a certeza de que tinha nas mãos uma missão especial. E me senti imensamente grata por essa arte que me faz feliz, que me permite expressar um pouquinho da minha bagagem, ter cruzado o meu caminho, assim como o fizeram as famílias tão especiais que confiaram seus tesouros a mim.

Desejo a vocês, meus queridos, dias de sol para sempre. ;-)

 

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