Hynnieh, a menina que traz felicidade {parto domiciliar}

fevereiro 25th, 2015

A vida é uma verdadeira sucessão de lições. Sempre tento crer, por mais difícil que pareça, que todas as situações pelas quais passamos, sejam boas ou ruins, nos ensinam algo. E esse aprendizado faz parte da nossa evolução nessa jornada.

A fotografia de partos, especialmente, me traz muitos desafios. E, consequentemente, muito aprendizado. Cada parto me rende uma lição ao menos, que vou juntando às demais para tentar crescer profissionalmente e me tornar uma pessoa melhor. Fotografar partos consiste em um trabalho bastante delicado e que envolve questões bem sérias e talvez muito menos românticas do que se pensa. Envolve muita intimidade, cumplicidade, discrição, sensibilidade, empatia, respeito, discernimento de quando fotografar e quando sair. A todo tempo minha subjetividade vem à tona e me vejo em questionamentos eternos e filosóficos, dignos de mesa de boteco, com meus valores, princípios, sentimentos. Com meu eu.

Tinha acabado de chegar em um bar para encontrar uns amigos. Como estava em disponibilidade para parto, fui de suco de laranja. Junto com o suco, chegou também uma mensagem no celular dizendo que Hynnieh estava querendo ser fotografada. Trocando em miúdos, trabalho de parto! Abreviei meu encontro com os amigos e não demorei pra ir pra casa. Precisava descansar, pois em parto só sabemos a hora que chegamos, mas não temos ideia de que horas vamos voltar. Estava tudo pronto e organizado. Só restava esperar.

Passou a noite inteira, a manhã seguinte e passava da hora do almoço quando falei com Joana, a doula. Ela me disse que o trabalho de parto estava bem lento e que a gestante não queria ninguém mais em casa. Mas pediu pra eu ficar preparada que ela me chamaria na hora que achasse mais adequada. Um pouco depois, ligou me chamando, mas já advertiu logo que eu chegasse praticamente sem ninguém me notar.

Nem o interfone eu toquei. Entrei em casa e fiquei um bom tempo na cozinha. Parada. Fazendo minhas preces. Tentando me concentrar. Optei por começar com uma lente que me possibilitasse ficar mais distante, sem invadir muito o espaço do casal. O tempo foi passando e fui me aproximando, conforme sentia que me era permitido. Evitava ficar no campo de visão da gestante e não trocava uma palavra com ninguém.

Em paralelo ao meu universo e ao turbilhão de coisas que se passavam em minha alma, uma mulher vivia seu turbilhão de hormônios, juntamente com medo, ansiedade, cansaço, enquanto enfrentava cada uma das contrações. Durante o trabalho de parto, muitas histórias afloram. É comum fantasmas adormecidos despertarem. Mas do mesmo lugar de onde eles saem, vem uma força impressionante. Força, garra, vontade, fé, superação. A luz que dá caminho para a felicidade. E energia para umas boas reboladas na zumba! ;-)

Foi lindo ser cúmplice de tudo isso. Ser mais um olhar de encorajamento, acolhimento e confiança. Ser o sorriso que diz que vai dar tudo certo. Mesmo sem nenhuma palavra.

Hynnieh nasceu às 22h12 e, assim como reza o significado do seu nome, trouxe felicidade. Mais felicidade. Sua passagem para esse lado de fora foi especial e transformadora. Para seus pais e para mim também.

Voltei pra casa com uma lição valiosa. E sobre mim mesma. Enxerguei algumas sombras, fraquezas e vaidades. Mexendo na ferida, de coração aberto, pude mudar algumas posturas e perspectivas sobre meu próprio trabalho. Inclusive, objetivamente, alterando algumas cláusulas do contrato. Percebi que minha presença não é fundamental. Os bebês não precisam de mim pra nascer. A mulher não precisa de mim pra parir. Não querer minha presença não tem nada pessoal contra mim. E percebi também que não ser fundamental não quer dizer que não tenha valor. Muito pelo contrário. Minha arte não é item de checklist. E pra mim vale muito mais contar essas histórias de amor porque as pessoas querem do que porque precisam.

Mesmo a Naisa estando um pouco resistente no seu momento de dor e cansaço, eles concordaram que eu fosse. Quiseram as fotos, o filme e todo o tesouro agregado. E fiquei muito feliz por isso. Hynnieh vai poder ver a mãe forte e guerreira que ela tem. Essa família tem imagens que ajudam a reconstruir a memória. Poderão, por meio das fotos e do filme, reviver a emoção de um dia tão marcante. E, mais uma vez, meu coração se enche de alegria. Alegria de missão cumprida, e com amor!

Hynnieh – a menina que traz felicidade from Ana Paula Batista on Vimeo.

Pena que nesse parto eu ainda não tinha tripé… Senão tinha deixado a câmera filmando e caído no ritmo da zumba também! Mas tudo bem… dei minhas requebradas enquanto editava o filme. :)

Equipe:

Enfermeira obstetra – Melissa Martinelli, da Humaniza Parto Natural e Nascimento Planejado

Doula – Joana Andrade

Fotografia e filme – euzinha!

Quando a Rainha do Mar chama… {nascimento do Lorenzo}

fevereiro 2nd, 2015

Era sábado à noite quando uma mensagem avisava início de trabalho de parto. Eu imaginava que seria naquele fim de semana e já tinha deixado tudo organizado. Última verificada no equipamento, carga e olho no celular, esperando novidades. A partir dali, meu contato era só com Joana, a doula, que já tinha me avisado que o trabalho de parto avançava lentamente e que, provavelmente iria demorar. Ela me avisaria quando fosse pra eu ir. Fiquei, então, aguardando ser chamada, na hora que o casal achasse adequado.

Acordei algumas vezes no meio da madrugada, pra ver se havia alguma mensagem ou ligação no telefone. Nada ainda. Tentava descansar e pensar no casal e naquele bebê que estava prestes a chegar, mandando boas energias, desejando paz e serenidade para a família. De manhã, Joana me chamou. Disse que eu poderia ir.

Quando cheguei, Marcela e Léo estavam embaixo do prédio, fazendo uma caminhada, tomando um solzinho. Em casa estavam Paloma, a parteira, e Joana abrindo as janelas, arejando a casa, renovando as energias. Disseram que foi bom eu ter chegado com energia nova.

As contrações eram desejadas e comemoradas. Apesar de muito doloridas, Marcela sabia o quanto elas eram necessárias para que seu bebê chegasse. E atravessava a dor com muita tranquilidade. Ela dançava, agachava, sentava na bola, procurava posições que amenizassem a dor. Paloma e Joana se revezavam nas massagens, com suas mãos de anjo. Música suave e o cheirinho de incenso deixavam o ambiente ainda mais acolhedor. Tudo chamava pelo pequeno Lorenzo.

No plano de parto distribuído a todos os profissionais envolvidos, inclusive eu, Marcela deixou expresso que não queria se sentir observada, o que tornava a minha missão um verdadeiro desafio. O fotógrafo de parto tem que ser muito cauteloso, discreto e, sobretudo, ter sensibilidade para saber a hora de entrar e a hora de sair. Eu transitava pela casa de maneira quase que invisível e ficava atenta a qualquer sinal de que pudesse estar atrapalhando. Acredito que isso não aconteceu. Eu só ficava em um lugar quando sentia que tacitamente minha presença era permitida naquele momento.

Assim seguimos o dia. Aguardando o tempo do Lorenzo. Esperando e respeitando o tempo de sua mãe. Dando apoio e aconchego para amenizar as dores. Mostrando que estávamos ali, com eles. As contrações eram espaçadas e perdiam seu ritmo. A parteira, juntamente com o médico backup com quem mantinha contato, e com o consentimento do casal, decidiu pela transferência para o hospital.

Depois de avaliação do médico e de discutirem as possibilidades por um tempo, o casal concordou com a cesárea. Perguntei pra Marcela se ela gostaria que eu a acompanhasse e ela disse “Claro, Ana! Você está contando a nossa história!”. Me preparei para ver a carinha do Lorenzo que, como exceção das minhas estatísticas, nasceu com a cara da mãe.

Muitas vezes, a vida nos coloca diante de situações que fogem do nosso controle ou planejamento. Temos que estar abertos e flexíveis para aceitar os novos caminhos. Marcela se preparou muito para o tão sonhado parto domiciliar, mas a vida a desviou dos seus planos. Contudo, Lorenzo nasceu no seu dia, quando estava pronto. No dia de Iemanjá. Um filho da Rainha do Mar.

O fato de Marcela não gostar de ser fotografada e não querer se sentir observada, fez desse trabalho um dos mais desafiadores pra mim. Tive que ter sensibilidade redobrada, além de estar sempre atenta a qualquer sinal de que ela estivesse incomodada com minha presença. Em nenhum momento senti que estava atrapalhando. Quando entreguei as fotos, o retorno que ela me deu foi extremamente gratificante, especialmente diante de tamanho desafio. Entre várias outras coisas, me agradeceu por eu estar com eles, contando sua história. E que, por meio das fotos, percebeu o quanto foi forte e lutou até o fim para que seu bebê viesse a esse mundo de forma respeitosa.

Cada vez mais, eu percebo o quanto essa missão de fotografar partos é delicada e especial. Exige de mim uma série de características, atitudes, valores e conhecimento. Por isso, tenho em meu coração um cantinho para guardar cada parto, com muito carinho.

Lorenzo, hoje você completa seu primeiro ano de vida. Como o tempo passou rápido! Saiba que você tem pais maravilhosos. Sua mãe é doce, meiga e ao mesmo tempo muito forte e determinada. Uma verdadeira leoa que está sempre pronta pra te proteger. Seu pai, do jeito que é companheirão da sua mãe, tenho certeza que também é um pai babão, super apaixonado por você. Você é um menino de sorte! Feliz aniversário, pequeno!

Dias de sol… para sempre! {ensaio de família}

janeiro 28th, 2015

Acredito que quando estou fotografando, estou contando uma história por meio de imagens. Quando digo isso, não acredito que essa história seja aquela verdade dos fatos, mas sim a minha forma de ver as cenas. Não tem como separar as fotografias da subjetividade do fotógrafo, mesmo quando se trata de um trabalho comercial, ou seja, para clientes.

Quando uma família pretende me contratar para uma sessão fotográfica, gosto de conhecê-la primeiro. Esse é o meu jeito. Não é que seja certo e nem que seja o único. Quando vou conhecer a família, procuro saber os seus costumes, o que gostam de fazer juntos, seu estilo de vida, a idade das crianças se o casal tiver filhos. Tudo isso vai guiando a escolha de vários detalhes da sessão e ajuda na formação do conceito daquele ensaio.

Além disso, acho muito interessante saber o que motivou a família a querer uma sessão de fotos. Gosto não só de contar histórias, mas também de ouvi-las. E uma das coisas legais nesse universo de fotografeira é conhecer pessoas e histórias diversas. Muitas delas me emocionam. Tocam lá no fundo! E quando esse envolvimento acontece é tão gostoso… A sessão é uma delícia e, como consequência, o resultado fica de acordo com as expectativas da família.

Com essa família querida foi assim… Na troca de e-mails eu percebi a história linda que estaria por trás das fotografias. Quando nos conhecemos pessoalmente, tive a certeza de que tinha nas mãos uma missão especial. E me senti imensamente grata por essa arte que me faz feliz, que me permite expressar um pouquinho da minha bagagem, ter cruzado o meu caminho, assim como o fizeram as famílias tão especiais que confiaram seus tesouros a mim.

Desejo a vocês, meus queridos, dias de sol para sempre. ;-)

Parir sorrindo {uma história de parto domiciliar}

janeiro 21st, 2015

No comecinho da gravidez, eles já frequentavam a Roda de Gestantes das doulas Taiza Nóbrega e Joana Andrade. Casal simpático e sorridente que demonstrou desde o início que queria um nascer respeitoso para seu bebê. Entretanto, tinham uma preocupação… Moram em uma cidade que fica a 75 km de Brasília e não conheciam nenhuma equipe de parto domiciliar por lá e tinham notícia de que os partos hospitalares não eram nada humanizados como desejavam. Pesquisaram algumas equipes de Brasília que disseram não ser possível atender em sua cidade, justamente pela distância dos hospitais daqui, caso fosse necessária uma transferência.

Simpatizei tanto com o casal que ofereci minha casa pra eles, se não encontrassem uma alternativa. Eles demonstraram tanta segurança e tanta vontade de ter um parto domiciliar… Não me esqueço da expressão da Cilene quando respondi afirmativamente, no final da Roda, à sua pergunta “Ana, você tava falando sério?”. E vi o sorriso lindo que ela tem se iluminar ali na minha frente. Eu só não sabia ainda que teria a honra de ver esse sorriso tantas outras vezes, inclusive durante o trabalho de parto. As semanas se passaram…

No meio da manhã, Taiza me liga dizendo que Cilene estava em trabalho de parto e que ela iria pra sua casa depois do almoço. O equipamento já estava pronto. Ajeitei a logística de casa, da minha filha, remanejei a agenda, almocei rapidinho e encontrei Taiza, com quem peguei uma carona. No meio do caminho, encontramos a enfermeira obstetra e pegamos estrada.

Eles estavam bem tranquilos e felizes, pois sabiam que seu bebê, cujo sexo ainda era desconhecido, estava perto de chegar. Algumas horas se passaram. Cilene sempre esbanjava seu sorriso lindo entre uma contração e outra. E ali, de longe, vendo o desenrolar do trabalho de parto, não tinha como deixar de vir à cabeça a cena do documentário O Renascimento do Parto em que a parteira Naoli Vinaver diz “Nós gostamos de parir!”.

O bebê estava perto de nascer. A sala é bem espaçosa, mas seguindo sua natureza, Cilene se posicionou em um cantinho ao lado do sofá, voltada pra parede. Cantinho bem apertadinho. A equipe teve que mostrar toda a sua flexibilidade. Literalmente. Me posicionei entre a piscina e a parede, me equilibrando, rezando pra não deixar a câmera cair na água, e procurando um bom ângulo para fotografar o nascimento.

Foi ali, naquele cantinho acolhedor, que Edimar pegou seu bebê e o entregou à mãe. A emoção tomou conta daquele pedacinho da sala. Depois daqueles primeiros momentos de puro êxtase, veio a curiosidade para saber o sexo do bebê. E, quando parecia não caber mais emoção, começou o chororô todo de novo quando ouvimos “É menina! E seu nome será Helena!”.

E tem que ter foto com a fotógrafa também, né? Não dispenso!

Doula: Taiza Nóbrega

Equipe: Humaniza Parto Natural e Nascimento Planejado

Cor rima com Amor {espera pelo Lorenzo}

janeiro 16th, 2015

Lembro como se fosse hoje o dia em que ela chegou lá em casa dizendo que estava grávida. Lembro até da blusa amarela com colar colorido que ela usava. E sei o quanto aquele bebê era desejado e já amado. Vibrei muito por ela, uma das pessoas que mais amo nessa vida.

A maioria dos parentes e amigos apostava que seria uma menina. Eu nadei contra a corrente. Sabia que era um menino. Eu sonhava com ele. E nos meus sonhos sentia um amor imenso por aquele molequinho que nem havia dado as caras ainda.

A barriguinha foi crescendo devagar. Muito linda! E ideias, umas insanas e outras nem tanto, não faltaram para fotografar o crescimento daquele bebezinho ainda dentro da sua casinha. Fizemos um acompanhamento em quatro ou cinco sessões durante a gestação. Com direito a fotos e filmes. Ainda não sabemos o que faremos com o material todo, mas não poderíamos deixar passar a oportunidade. Afinal de contas, não é todo dia que se fica grávida! Quem sabe mais pra frente faço um post sobre o acompanhamento, com uma amostrinha de cada sessão?

A gravidez correu tranquila e, não sei pra ela que carregou o peso por meses, mas pra mim parece que passou tudo num piscar de olhos. Quando dei por mim, já beiravam as 33 semanas e estava na hora de fazermos a sessão com o barrigão (mentira… ficou uma barriguinha bem pequenininha!). Não gosto muito de deixar a sessão pra perto das 40 semanas. Porque, né? Vai que… E como decidimos que faríamos duas sessões, com conceitos e pegadas diferentes, já estava na hora de fazer a primeira “oficial”.

Nessa sessão exploramos locações mais urbanas e cores, muitas cores. Depois de conversarmos e discutirmos algumas ideias, chegamos a um consenso sobre lugares que seriam interessantes. Já pensando nos lugares, dei meu pitaco nas cores das roupas (Fotógrafos, se tiverem interesse, podemos falar sobre esses pitacos em outro post), para que tudo estivesse em harmonia e as imagens refletissem a linguagem que decidimos para a sessão.

Escolhemos um feriado e, pra minha torcida, o dia estava nublado. Isso mesmo! Nem só de pôr-do-sol vivem os fotógrafos, minha gente. Eu queria uma luz difusa, suave, sem sombras. E saiu tudo dentro dos conformes. Inclusive uma locação de improviso que decidimos no calor do ensaio pra fechar a sessão com brinde de cappuccino!

Essa história ainda terá muitos capítulos por aqui!

 

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